Violadas e feridas. Dentro de casa

29/07/2010 19:18

 

 

 

  A  maioria dos molestadores sexuais de crianças tem a confiança das vítimas: são seus pais, padrastos ou parentes.

 

                                                                                                                                                            Laura Diniz e Leonardo Coutinho

A família e a própria casa são a maior proteção que uma criança pode ter contra os perigos do mundo. É nesse ninho de amor, atenção e resguardo que ela ganha confiança para lançar-se sozinha, na idade adulta, à grande aventura da vida. Mas nem todas as crianças com família e quatro paredes sólidas em seu redor são felizes. Em vez de contarem com o amor de adultos responsáveis, elas sofrem estupros e carícias obscenas. Em lugar do cuidado que a sua fragilidade física e emocional requer, elas são confrontadas com surras e violência psicológica para que fiquem caladas e continuem a ser violadas por seus algozes impunes. No vasto cardápio de vilezas que um ser humano é capaz de perpetrar contra um semelhante, o abuso sexual de meninas e meninos é dos mais abjetos - em especial quando é cometido por familiares. Para nosso horror, essa é uma situação mais comum do que a imaginação ousa conceber. Estima-se que, no Brasil, a cada dia, 165 crianças ou adolescentes sejam vítimas de abuso sexual. A esmagadora maioria deles, dentro de seus lares.

A frequência intolerável com que esse tipo de crime ocorre no país ficou evidente com a divulgação do caso da menina G.M.B.S., engravidada pelo padrasto aos 9 anos de idade, em Pernambuco. Sua mãe decidiu que ela, grávida de gêmeos, deveria ser submetida a um aborto. Quando, há três semanas, G. chegou ao hospital carregando uma sacola de brinquedos, os médicos encarregados do procedimento ficaram atônitos: não tinham ideia da quantidade de medicamentos que deveriam usar numa gestante tão diminuta - G. mede 1,36 metro e pesava então 33 quilos. "Nunca havíamos atendido uma criança tão pequena", disse o médico Sérgio Cabral. O caso de G. chamou atenção por causa da polêmica sobre o aborto a que, no fim, ela se submeteu, amparada pela lei que autoriza a intervenção nas situações em que a mãe corre risco de vida. Já a gravidez de G., e mesmo a situação que resultou nela, causa menos escândalo no país do que deveria.

 Alguns casos :

 "Meu pai me pegava com força, segurava meus braços e tapava minha boca. Depois colocava uma coisa dura em mim. Ele me molhava com uma coisa quente." M., de 8 anos.

"Ele me deu bombons e me levou para o terreno da casa dele. Tirou minha roupa de baixo e colocou o pipiu dele. Doeu muito, eu chorei e ele deu bombons de novo." C., de 7 anos, abusada pelo vizinho.

 "Quando minha mãe não estava em casa, ele tirava minha roupa de baixo, passava a mão e me abraçava apertado. Passava a mão nos meus peitos e ameaçava bater se eucontasse para alguém." R., de 9 anos, abusada pelo padrasto.Acho que nunca vou superar

MEDO

A dona-de-casa cujo filho foi molestado pelo professor: "Não confio mais em ninguém" "Um dia, abri o Orkut do meu filho, que tinha 10 anos. Fiquei cega quando vi o e-mail de um homem que dava a entender que tinha feito o pior com ele. Conversamos, ele chorou e contou que o professor de informática havia feito sexo oral nele e tentado beijá-lo. Senti ódio. Registrei queixa na polícia e ele teve de fazer exame de corpo de delito. Foi horrível, nunca vou esquecer a cena: meu filho deitado em posição ginecológica para a perícia. Ele me odiou por fazê-lo passar por aquele constrangimento. Depois disso tudo, ficou agressivo. Começou a mexer com as meninas na escola e fazer brincadeiras bobas com os meninos. Acho que aquilo mexeu com a sua sexualidade. Não tenho mais coragem de ficar longe dele e dos meus outros filhos, nem de deixá-los com ninguém. Perdi a confiança em todo mundo." R.S.B.S., 33 anos, dona-de-casa (São Paulo-SP)

"Ele me levou para o quarto e me estuprou"

 

DUPLA DORQuando T. contou à mãe que o padrasto abusou dela, ouviu que, "se durou tanto, ela devia estar gostando"

 

"Quando eu tinha 9 anos e estava vendo TV, meu padrasto começou a passar as mãos na minha perna. Pedi para ele parar, mas ele me levou para o quarto à força, tirou a minha roupa e me estuprou. Quando acabou, disse que, se eu contasse para a minha mãe, ele a mataria e mataria também o meu irmão, filho deles. Fez isso comigo quase todos os dias, enquanto minha mãe trabalhava. Quando falei que ia contar, ele me deu um soco, me bateu com o cinto e disse à minha mãe que eu era malcriada. Ela me deu outra surra. Ele só parou quando eu fiquei menstruada, aos 13 anos. Contei para minha mãe aos 16, quando eles já estavam separados. Ela disse que, se durou tanto tempo, era porque eu devia estar gostando. Mas, depois de falar com ele, ela passou a acreditar em mim. Agora, é meu irmão que sempre volta triste quando vai visitá-lo. Eu pergunto por que e ele não responde." T.S., 17 anos, estudante (Vitória-ES)

 

 

 

A tristemente famosa menina G., que está em um abrigo do governo de Pernambuco desde que saiu do hospital, até hoje não falou sobre os estupros a que foi submetida por três anos. A psicólogos e assistentes sociais que a acompanham, ela também não dá indícios de saber que passou por uma gravidez e um aborto. Quando estava ainda em Alagoinha, sua cidade natal, e a gestação deu os primeiros sinais, sua mãe pensou que se tratasse de uma verminose. Mesmo depois de descoberta a gravidez, manteve a versão diante da filha: dizia a ela que os enjoos que sentia se deviam à ação de parasitas. "G. se comporta como se nada tivesse acontecido. Com o tempo, vai ter de começar a lidar com os fatos, mas só o desenvolvimento dela determinará como e quando", diz a coordenadora do abrigo, que, por questões de segurança, não pode ter a identidade revelada.

Terapia, acolhimento familiar e o afastamento do agressor são os elementos que ajudam a criança vítima de abuso sexual a recompor os laços de confiança que se romperam com a violência. A convalescença de uma ferida psíquica na criança pode durar meses ou anos. Mas as cicatrizes deixadas pela traição e pela humilhação infligidas por aqueles que deveriam protegê-la, essas ficam para sempre.